domingo, 6 de junho de 2010

Destino

Olhei com curiosidade as pessoas com quem me cruzei hoje de manhã no aeroporto. Tinham um ar determinado de viajante com bilhete comprado e passaporte sem prazo de validade. Dirigiam-se para o "check in" e para as portas de embarque com a certeza de quem voa para o único destino possível, de quem constrói o próprio destino. Encaminhei-me para os elevadores, carreguei no botão "menos dois" com a sensação de quem se precipita no abismo enquanto Ícaro se eleva nos céus.

O largo

Gosto do largo, do pequeno jardim com o banco vazio, e as árvores que dormem. Gosto deste rumor que faz estremecer a noite, e embala o meu canto da cidade.

A noite

O corpo da noite tem as medidas da janela do quarto. O vento empurra as vidraças e estilhaça a moldura que continha a escuridão. A noite invade todo o espaço, a pele dilatada pelo sopro que vem do mar cola-se às paredes, à roupa deixada nas costas da cadeira, à cama por fazer. Ao tocar a lâmpada acesa do candeeiro, rebenta. No soalho luzem pedaços de balão.

domingo, 30 de maio de 2010

Entre-as-Praias (Grande e das Maçãs)

Empurradas pelo vento do entardecer, as nuvens filtram a luz que se derrama sobre o mar. São esses os únicos espelhos em que reconheço fragmentos da face de Deus.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Literalmente, neste natal

Quando chegares, neste dezembro, será quase natal. Sem pinheiro, sem presépio, sem presentes. Sem festas no olhar, sem afagos nas mãos, sem tempo para ficar. Quando chegares trarás o coração ao ritmo da partida, a mala vai ficar semi-aberta no chão, indiferente às gavetas fechadas, cheias de roupas que já ninguém veste, com um cheiro misturado das estações. Vou subir as escadas dessa casa estranha como se reconhecesse cada degrau, adivinhar o perfil da serra através das persianas fechadas, a transparência da luz sobre uma nesga de mar, e vou sentir o frio agarrar-se à pele. Quando a porta de entrada deixar de estar sujeita a metáforas e for literalmente porta de saída, direi de mim para mim, no silêncio de um sorriso, que seja como for em breve será natal.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Contra-senso

A ausência pode ter a densidade de um corpo que deixa marcas de vazio no colchão. É também assim que se sente saudades de alguém. Disse-lhe ela.

sábado, 10 de outubro de 2009

Aconchego

Antes de me deitar embalo a memória, murmuro-lhe uma história fantástica com muita gente feliz, afago-lhe as pálpebras pesadas que me protegem do olhar. Só então me aconchego no silêncio da noite.