Da minha casa, em Lisboa, não vejo o Tejo, mas adivinho com que humor amanhece.
Há dias em que se mantém distante, a luz pinta um céu azul puríssimo que os aviões riscam com traços brancos. Apetece sobrevoar a cidade, partir com os olhos a doerem da nitidez da imagem.
Há manhãs em que o rio se cansa de ser caudal e se liberta do leito, das margens e do cais. Imersa em neblina, chego à varanda como quem se apoxima da amurada de um barco, e navego no espaço, sem ver o horizonte, acompanhadada pelo espírito dos náufragos.
sábado, 19 de janeiro de 2008
sábado, 12 de janeiro de 2008
Os 100 nomes do amor
Ta'achchqa
Cair nos laços do amor, enamorar-se, deixar-se prender.
"Pergunto-me com espanto", nota Al-Mountanabbi (915-965) - literalmente aquele que quis ser profeta -, "como saberá morrer quem não deseja nada.". [...]
Ainda na ressaca do Natal, com o pretexto de trocar por géneros um "cheque oferta" FNAC, que lhe coube em sorte, o Francisco arrastou-me, no passado domingo, ao Colombo.
Hordas sonâmbulas deambulavam por corredores murados de vitrines que ofereciam, a preços de saldo, milhares de coisas mais ou menos inúteis. O dinheiro (ou a falta dele) não é nunca um problema: apresenta-se o mágico cartão de plástico, digitam-se quatro números (a tecnologia do chip já chegou a Portugal) e assim se aprofunda, sem angústia nem consciência, o endividamento das famílias. O crédito é a epidural de milhões de portugueses.
Pasmei com a quantidade de bébés cujo primeiro contacto com o mundo é o Centro Comercial (não, não é o Centro Paroquial). Transportados em carrinhos com espaços destinados a acomodar sacos volumosos, têm prioridade nos elevadores, não vá dar-se o caso de serem os pais gente de pouca fé e desistirem de levar os inocentes em peregrinação aos andares superiores da Catedral.
Senti-me tão deprimida após esta odisseia que, chegados finalmente ao local de destino, ofereci (cash!) a mim mesma o último CD da Vanessa da Mata e um livrinho surpreendente: Os 100 Nomes do Amor, de Malek Chebel (texto) e Lassaâd Métoui (caligrafia). Cito um excerto do texto da contracapa: "Os árabes têm 99 nomes para Alá, o Deus único, e 100 para o amor. Se uma tal riqueza semântica mostra como, na civilização árabe-islâmica, a arte de amar e de dizer atingiu um refinamento admirável, ela também nos permite chegar mais perto do sentimento amoroso e perceber as suas ínfimas variações."
Um precioso antídoto contra a "apagada e vil tristeza" de um final de tarde de domingo.
Cair nos laços do amor, enamorar-se, deixar-se prender.
"Pergunto-me com espanto", nota Al-Mountanabbi (915-965) - literalmente aquele que quis ser profeta -, "como saberá morrer quem não deseja nada.". [...]
Ainda na ressaca do Natal, com o pretexto de trocar por géneros um "cheque oferta" FNAC, que lhe coube em sorte, o Francisco arrastou-me, no passado domingo, ao Colombo.
Hordas sonâmbulas deambulavam por corredores murados de vitrines que ofereciam, a preços de saldo, milhares de coisas mais ou menos inúteis. O dinheiro (ou a falta dele) não é nunca um problema: apresenta-se o mágico cartão de plástico, digitam-se quatro números (a tecnologia do chip já chegou a Portugal) e assim se aprofunda, sem angústia nem consciência, o endividamento das famílias. O crédito é a epidural de milhões de portugueses.
Pasmei com a quantidade de bébés cujo primeiro contacto com o mundo é o Centro Comercial (não, não é o Centro Paroquial). Transportados em carrinhos com espaços destinados a acomodar sacos volumosos, têm prioridade nos elevadores, não vá dar-se o caso de serem os pais gente de pouca fé e desistirem de levar os inocentes em peregrinação aos andares superiores da Catedral.
Senti-me tão deprimida após esta odisseia que, chegados finalmente ao local de destino, ofereci (cash!) a mim mesma o último CD da Vanessa da Mata e um livrinho surpreendente: Os 100 Nomes do Amor, de Malek Chebel (texto) e Lassaâd Métoui (caligrafia). Cito um excerto do texto da contracapa: "Os árabes têm 99 nomes para Alá, o Deus único, e 100 para o amor. Se uma tal riqueza semântica mostra como, na civilização árabe-islâmica, a arte de amar e de dizer atingiu um refinamento admirável, ela também nos permite chegar mais perto do sentimento amoroso e perceber as suas ínfimas variações."
Um precioso antídoto contra a "apagada e vil tristeza" de um final de tarde de domingo.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Natal 2007
ao meu pai e ao Ronald, mesmo que eles não saibam
[...]
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
[...]
David Mourão-Ferreira
Começamos a afastar-nos da infância quando o Natal deixa de ser o momento em que magia e realidade se fundem, mas encenamos ainda a inocência, para satisfazer o esforço de pais, tios e avós.
Mais tarde, os doces que devoramos deixam um travo amargo na boca, que perdura durante as festas: é o protesto da vesícula e a náusea da alma perante as cadeiras vazias e os nomes que não ousamos pronunciar.
[...]
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
[...]
David Mourão-Ferreira
Começamos a afastar-nos da infância quando o Natal deixa de ser o momento em que magia e realidade se fundem, mas encenamos ainda a inocência, para satisfazer o esforço de pais, tios e avós.
Mais tarde, os doces que devoramos deixam um travo amargo na boca, que perdura durante as festas: é o protesto da vesícula e a náusea da alma perante as cadeiras vazias e os nomes que não ousamos pronunciar.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Revelação
Nada
nas palavras se revela
para além da carne
das sílabas feridas
na colisão dos sons. De súbito,
os sentidos acendem a memória.
O mar, por exemplo, recorta-se
nas rochas, imóvel como um quadro
pendurado do céu.
nas palavras se revela
para além da carne
das sílabas feridas
na colisão dos sons. De súbito,
os sentidos acendem a memória.
O mar, por exemplo, recorta-se
nas rochas, imóvel como um quadro
pendurado do céu.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
contra(o)tempo
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Aos meus amigos
Os amigos não lêem este blogue, coisa de nada, perdida nem eu sei onde.
Os amigos reúnem-se, enchem as salas de vozes, risos, discutem muito, ainda, alguns deles. Outros cansaram-se de falar e de ouvir, julgam saber sempre o que vai ser dito quando, na verdade, ensurdeceram ao som dos sonhos. Os amigos têm rugas novas no rosto, engordaram, tiveram filhos, descobrem os netos, reinventam emoções. Os amigos não são sedentários, viajaram por todos os continentes, esqueceram o número de países visitados, atravessaram o tempo, não salvaram o mundo.
Os amigos conhecem-se há muitos anos e, mesmo se hoje fingem não se ver, a memória está carregada de fotografias que alguém tirou, a propósito de qualquer coisa que se viveu em comum. Os amigos, às vezes, ainda riem até às lágrimas, e já houve lágrimas que não eram de rir.
Os amigos, conjugo-os no presente, todos os dias, porque sem eles, em cada manhã, morreria o dia.
Os amigos reúnem-se, enchem as salas de vozes, risos, discutem muito, ainda, alguns deles. Outros cansaram-se de falar e de ouvir, julgam saber sempre o que vai ser dito quando, na verdade, ensurdeceram ao som dos sonhos. Os amigos têm rugas novas no rosto, engordaram, tiveram filhos, descobrem os netos, reinventam emoções. Os amigos não são sedentários, viajaram por todos os continentes, esqueceram o número de países visitados, atravessaram o tempo, não salvaram o mundo.
Os amigos conhecem-se há muitos anos e, mesmo se hoje fingem não se ver, a memória está carregada de fotografias que alguém tirou, a propósito de qualquer coisa que se viveu em comum. Os amigos, às vezes, ainda riem até às lágrimas, e já houve lágrimas que não eram de rir.
Os amigos, conjugo-os no presente, todos os dias, porque sem eles, em cada manhã, morreria o dia.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Praia grande
Praia grandeImagem: Adrião
Licença: Creative Commons
Ao cair da tarde, a praia grande entrega-se à lua oculta, que determina as marés. O areal cresce, húmido, o mar recua. Há alguns mastros dispersos, que hasteiam bóias esquecidas do verão, ao abandono, na ausência de banhistas e nadadores-salvadores, capitães de uma turba que, a tiritar, se debate com uma muralha de ondas em derrocada. Mansas, hoje nem os surfistas acolhem. O olhar navega neste mar desabitado até à linha do horizonte, mar vivo sob a opacidade da superfície, que estremece em permanente transfiguração. As raras figuras sentadas dentro dos automóveis parados ou para lá das vidraças dos cafés parecem estátuas de sal.
Derramam-se as sombras sobre a serenidade da paisagem e dos seres.
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