terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Lugares


Nenhum lugar tem um valor absoluto. Sei que se pode sussurrar, através de ruelas, praças e pontes, «Que c'est triste Venise», na certeza do desamor sem remissão, e ao mesmo tempo sentirmo-nos apaziguados pela violência da beleza à beira da ruína.
Amo o Porto com o corpo inteiro, a memória debruçada sobre o Douro, a ponta dos dedos esticados quase a tocar a outra margem, o desejo de que o relógio pare, a noite nunca acabe e o Alfa pendular esqueça o trajecto de regresso a Lisboa.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

À deriva


                  Com a Teresa, a Zizas, o Luís Miguel por companhia

Uma amiga morreu. Outra amiga morreu. Ambas morreram de cancro. Um amigo morreu. Foi assassinado. Sempre viveu com um pé para cá e outro para lá de uma linha fluida a que se pode chamar limite. Entre segurança e medo, entre riso e terror, entre  ternura e sarcasmo. Fazem-me falta os amigos que morreram. A vida de cada um deles é uma narrativa diferente das outras, mas cruzam-se em mim. A minha história não seria a mesma se eles não participassem nela e não me tivessem transformado sem eu dar por isso. Eu não seria eu sem a presença distante da minha vizinha das casas geminadas onde vivemos na infância, sem o amor incondicional que resistiu ao carácter secreto da minha amiga,  ao afastamento da adolescência, à distância geográfica da idade adulta. Foi um amor sofrido, porque a escolhi para irmã e só muito mais tarde descobri que não é possível exigir aos afectos a reciprocidade de uma imagem no espelho. Eu não seria eu sem o constante zelo da minha outra amiga que morreu. As mágoas da orfandade transformou-as numa rede em que  baloiçávamos confiantes na atenção do seu olhar. Eu não seria eu sem as gargalhadas e a tristeza do meu amigo poeta, sem as palavras que ele disse, sem as palavras que escreveu. Sem eles eu não seria eu, porque foi neles que me reconheci na premência do amor, na constância da amizade, no desejo que espia o abismo. Os meus amigos vivem.       

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Cris(e)

Oiço as notícias na Antena 1, às duas horas da manhã. Nem sei se começo mal o dia ou se a minha noite de sono corre o risco de se perder. Crise, crise, crise. Não é consolo ser mundial, vai-se assim a esperança de fugir. Até agora, em português, a crise é um nome relativamente silencioso. Em francês, a palavra está grávida de revolta: des cris, des cris, des cris...

domingo, 25 de janeiro de 2009

Domingos


Há domingos em que se acorda já com o dia a meio e um sobressalto ao imaginar as horas que se interpõem entre o momento e a noite. Lá fora, alguém se esqueceu de acender a luz da manhã ou de enrolar o toldo de nuvens.  

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Ausência

Estes dias de inverno disparam flashes de luz fria que me cegam por instantes e te acordam em mim. Com os dedos, sacudo o sono dos olhos, espregiço-me por dentro das mangas do casaco, pressinto, entre todos os outros, os passos que se aproximam. Não sais do carro, não acenas do outro lado da rua, não me esperas à porta de um andar vazio. Não sorris, não me beijas, não dizes olá. Dir-se-ia que não estás aqui. Talvez só eu saiba que colado ao meu corpo caminha um outro corpo. Riu-me cada vez que os meus pés tropeçam nos teus pés, e só não caio porque os teus braços me seguram.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Epitáfio

Um envelope acolchoado com uma moldura vazia e uma frase que é um epitáfio chegaram à minha caixa do correio. O natal acalenta o ano moribundo, entre um sonho e uma fatia de bolo-rei é tempo de deglutir o luto do que podia ter sido. Paz à minha alma!